Há uma Paris que não aparece nos cartões-postais nem nas filas do Louvre. Ela existe nas esquinas do 5º arrondissement, nas mesas de mármore frio dos cafés de Saint-Germain, no cheiro de pão quente misturado à umidade do Sena pela manhã. É a Paris que um jovem jornalista americano de 22 anos, quase sem dinheiro, percorreu a pé entre 1921 e 1928, carregando cadernos, fome e a certeza de que estava vivendo algo que um dia contaria. Décadas depois, Ernest Hemingway resumiria essa experiência numa frase que se tornaria quase um mandamento para viajantes: a de que Paris, uma vez vivida na juventude, nunca deixa de acompanhar quem a viveu, para onde quer que essa pessoa vá depois.
Este roteiro segue os passos reais do escritor — endereços documentados, cafés que sobrevivem até hoje e trajetos que ele próprio descreveu em “Paris é uma Festa”, seu livro de memórias publicado postumamente. Dá para fazer tudo em um único dia, andando, como ele fazia.
Manhã: o apartamento pobre e o bairro que formou o escritor
O ponto de partida é o número 74 da Rue du Cardinal Lemoine, no Quartier Latin. Foi ali, num apartamento de dois cômodos sem água quente e com banheiro externo, que Hemingway e sua primeira esposa, Hadley, viveram entre janeiro de 1922 e agosto de 1923. Uma placa discreta na fachada marca o local — o interior não é aberto a visitas, mas a rua em si já conta a história de um casal recém-chegado à cidade, vivendo com quase nada.
A poucos metros dali fica a Place de la Contrescarpe, uma pracinha com fonte central que Hemingway atravessava quase diariamente. Vale reservar meia hora para um café numa das mesas de rua, observando o movimento que pouco mudou desde os anos 1920.
De lá, siga a pé até a Rue Mouffetard, uma das ruas de mercado mais antigas de Paris, que o próprio escritor descreveu como uma via estreita e movimentada, repleta de bancas e vida cotidiana. Ainda hoje funciona como mercado de rua pela manhã — o horário ideal para senti-la como ele a sentiu.
Meio-dia: o cômodo de escrever e a livraria que salvou um escritor pobre
No número 39 da Rue Descartes, a poucos passos do apartamento, Hemingway alugava um quarto simples só para escrever, longe do barulho doméstico. Era ali, isolado, que produzia boa parte de seus primeiros contos.
Da Rue Descartes, a caminhada segue em direção ao Sena até a Rue de l’Odéon, onde funcionava a Shakespeare and Company original, aberta em 1919 pela americana Sylvia Beach. A livraria fechou em 1941, mas uma placa comemorativa ainda marca o endereço. Foi ali que Beach emprestava livros a Hemingway quando ele não tinha dinheiro para comprá-los, recebia sua correspondência e o apresentava a outros escritores expatriados, como James Joyce. Hoje, o nome sobrevive na livraria Shakespeare and Company da Rue de la Bûcherie, aberta em 1951 em frente à Catedral de Notre-Dame — um destino obrigatório para completar a experiência, mesmo sendo um endereço diferente do original.
Tarde: os cafés de Saint-Germain-des-Prés
Depois do almoço, o roteiro segue para o coração intelectual da margem esquerda: os cafés Les Deux Magots e Café de Flore, na Place Saint-Germain-des-Prés. Hemingway frequentava ambos e usou o primeiro como cenário em “O Sol Também se Levanta”. Do outro lado da rua fica a Brasserie Lipp, onde ele apreciava chope e batatas com salsicha entre uma sessão de escrita e outra.
Vale sentar em qualquer um desses três endereços, pedir um café ou uma taça de vinho, e simplesmente observar — foi exatamente esse hábito de contemplação atenta que alimentou boa parte de sua escrita.
Fim de tarde: La Closerie des Lilas
O ponto alto do roteiro literário fica na esquina do Boulevard Montparnasse com a Avenue de l’Observatoire: o café La Closerie des Lilas. Foi aqui que Hemingway escreveu grande parte de “O Sol Também se Levanta” e que, numa tarde célebre, leu “O Grande Gatsby” pela primeira vez ao lado do amigo F. Scott Fitzgerald. Uma placa de latão ainda marca seu assento favorito no bar, e o cardápio inclui, até hoje, um prato batizado em sua homenagem.
Noite: um brinde final
Para encerrar o dia como ele encerraria — com um drinque —, a sugestão é caminhar até o Hôtel Ritz, na Place Vendôme, cujo bar interno leva hoje o nome de Hemingway em sua homenagem. A lenda urbana diz que ele “libertou” o bar do hotel em agosto de 1944, durante a libertação de Paris. Comprovada ou não, a história rendeu ao lugar seu status de peregrinação para admiradores do escritor.
Ao final desse percurso — que soma poucos quilômetros, mas atravessa quase uma década de memórias literárias —, fica claro por que tantos escritores, jornalistas e viajantes ainda hoje refazem esses mesmos passos. Não é sobre visitar prédios antigos ou tirar fotos em frente a placas comemorativas. É sobre entender, com o corpo cansado e os pés doloridos ao fim do dia, por que um jovem pobre e ambicioso escolheu justamente essas ruas para se tornar escritor — e por que, quase um século depois, elas continuam ensinando a mesma lição: que a boa escrita nasce da atenção simples ao mundo ao redor, de um café bem observado, de uma rua bem caminhada. Paris não mudou tanto assim. Só espera que alguém volte a prestar atenção.