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A mesa favorita de Fernando Pessoa ainda existe e você pode se sentar nela

Lisboa tem uma esquina onde o tempo parece ter se recusado a andar. É a Rua Garrett, no coração do Chiado, e é ali, entre o cheiro de café torrado e o burburinho de turistas em busca de uma fotografia, que uma cadeira de bronze permanece eternamente ocupada. Sentado a ela, de chapéu, gravata e olhar perdido em algum verso inacabado, está Fernando Pessoa — ou pelo menos a versão dele que a cidade decidiu congelar para sempre. Mas antes de virar estátua, aquele lugar foi, durante anos, um endereço fixo na rotina de um dos maiores poetas da língua portuguesa. E o mais surpreendente é que, mais de um século depois, ainda dá para puxar a cadeira e se sentar exatamente onde ele se sentava.

Um café que chegou trazendo o Brasil na bagagem

A Brasileira nasceu em 19 de novembro de 1905, fundada por Adriano Telles, um português que havia emigrado para o Brasil e se casado com a filha de um produtor de café de Minas Gerais. Ao voltar a Lisboa, Telles trouxe consigo não só a esposa, mas também a ideia de apresentar aos lisboetas um café que eles ainda não conheciam bem: o grão brasileiro, torrado e servido com a intensidade que hoje se tornaria sinônimo da própria cidade, a bica. Para convencer a clientela, ele distribuía o café gratuitamente nos primeiros tempos — uma estratégia de divulgação que, mais de cem anos depois, rendeu um dos endereços mais fotografados de Portugal.

O salão foi desenhado pelo arquiteto Norte Júnior, com um balcão comprido de um lado e mesas de tampo de mármore do outro, ladeadas por telas de pintores modernistas. Não demorou para que aquele espaço se tornasse território de intelectuais, escritores e artistas — e para que um jovem poeta magro, de óculos redondos e paletó impecável, fizesse dali uma espécie de segunda casa.

Cinquenta dias, dezenas de visitas: o diário que provou o vício

Não é lenda de guia turístico. Existe prova documental da relação de Pessoa com aquelas mesas. Entre 15 de fevereiro e 9 de abril de 1913, o poeta manteve um pequeno diário — abandonado depois de menos de dois meses — no qual anotava, quase compulsivamente, seus encontros e idas à Brasileira. São mais de cinquenta menções ao café nesse curto período, muitas delas registrando visitas diárias, de manhã e à noite, para encontros combinados ou reencontros por acaso com outros escritores. Pessoa não apenas frequentava o lugar: ele o usava como extensão do próprio escritório, como sala de estar intelectual, como palco de bastidores para a vida literária que se armava em Lisboa naquele início de século.

A mesa onde nasceu um escândalo chamado modernismo

Se A Brasileira já era ponto de encontro, foi em 1915 que ela entrou definitivamente para a história da literatura portuguesa. Foi nas suas mesas que Fernando Pessoa, ao lado de Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor, arquitetou a revista Orpheu, publicação que lançaria o movimento modernista em Portugal em meio a um escândalo só comparável, guardadas as proporções, ao Armory Show americano. Enquanto o país ainda respirava um conservadorismo pós-monárquico, aquele grupo discutia, entre goles de bica, uma ruptura estética que mudaria para sempre a literatura de língua portuguesa. As paredes do café, aliás, chegaram a abrigar o que se considera o primeiro pequeno museu de arte moderna de Lisboa, com telas de artistas que ali se reuniam.

Roteiro para sentar onde Fernando Pessoa escrevia

Para quem quer viver essa experiência de verdade, e não apenas cruzar os braços ao lado da estátua para a foto de praxe, existe um roteiro simples:

1. Chegue cedo. A Brasileira abre pela manhã, e é nesse horário — o mesmo em que Pessoa registrava suas primeiras visitas do dia no diário de 1913 — que o salão ainda respira tranquilidade antes da avalanche de turistas do meio-dia.

2. Entre, não fique só na esplanada. A estátua de bronze, criada pelo escultor Lagoa Henriques e inaugurada nos anos 1980 para celebrar o centenário de nascimento do poeta, fica do lado de fora e é o ímã de quem passa correndo. Mas o interior — com suas mesas de mármore original e o balcão comprido — é onde a atmosfera de 1913 realmente sobrevive.

3. Peça uma bica no balcão primeiro. É mais barata do que sentar à mesa, e era exatamente o tipo de consumo rápido e cotidiano que fazia parte da rotina lisboeta da época.

4. Depois, ocupe uma mesa de mármore, de preferência perto das pinturas na parede. Peça a bica ali — vai custar um pouco mais, mas é o gesto que replica o hábito de quem ficava horas discutindo literatura.

5. Observe os detalhes expostos no salão: os icônicos óculos redondos de Pessoa e uma rara edição original de Mensagem, o único livro que ele publicou em português ainda em vida, hoje reeditado pela própria casa em várias línguas.

6. Ao sair, cumprimente a estátua — mas saiba que o verdadeiro tributo já foi feito lá dentro, com o corpo sentado onde o poeta sentou de verdade.

Hoje, A Brasileira é uma das únicas três casas de café históricas de Lisboa que sobreviveram ao século XX sem fechar as portas, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1997 e premiada pela Câmara Municipal em 2017 como “Loja com História”. Mas nenhum selo oficial explica tão bem por que aquele endereço importa quanto o simples fato de que, se você entrar agora, puder pedir uma bica e sentar-se numa daquelas mesas de mármore frio, você estará ocupando fisicamente o mesmo espaço onde um homem inventou dezenas de outros homens dentro de si — Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro — e mudou para sempre o que a literatura portuguesa podia ser. A cadeira de bronze lá fora é só um lembrete. A mesa de verdade, a que ainda serve café quente todos os dias, é o convite.

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