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O bairro de Tóquio onde a cidade mostra seu lado mais contraditório

São sete da noite em Shinjuku e o céu ainda guarda um resquício de luz azulada, mas já não importa: os letreiros de néon já venceram o sol. Multidões avançam em silêncio quase organizado pelas calçadas, enquanto alto-falantes recrutam clientes para clubes de hospedeiros e hostess bars. A duzentos metros dali, atravessando um portão vermelho de madeira, o barulho desaparece quase por completo. Incensos ardem diante de um santuário xintoísta erguido séculos antes de qualquer néon existir. Não é exagero dizer que, em nenhum outro lugar de Tóquio, o sagrado e o profano dividem o mesmo quarteirão com tamanha naturalidade. Esse lugar é Kabukicho, dentro do distrito de Shinjuku — e talvez seja o pedaço mais contraditório de toda a metrópole japonesa.

Um teatro que nunca existiu, mas batizou um bairro inteiro

A história começa com uma ausência. Depois que os bombardeios aéreos da Segunda Guerra Mundial arrasaram Tóquio em 1945, a área — até então um pântano transformado em bairro residencial habitado majoritariamente por famílias coreanas e chinesas — foi escolhida para um projeto ambicioso de reconstrução urbana. O plano prometia um imponente teatro kabuki, o Kikuza, com quase dois mil assentos, capaz de rivalizar com a Broadway novaiorquina. O nome do bairro, Kabukicho, “distrito do kabuki”, foi registrado oficialmente em 1947 em homenagem a esse futuro teatro. Só que o teatro nunca saiu do papel: problemas financeiros no pós-guerra engavetaram o projeto para sempre. O nome, porém, sobreviveu à falência do sonho que o originou — e até hoje batiza o maior distrito de entretenimento do Japão, um lugar que ironicamente tem muito pouco a ver com a arte tradicional que lhe deu origem.

Da miséria do pós-guerra ao território das sombras

Sem o teatro, o vazio foi ocupado por outra economia. Ainda no fim dos anos 1940, Shinjuku abrigou o primeiro mercado negro de Tóquio, controlado por grupos que, décadas depois, se consolidariam como organizações criminosas. Bares clandestinos, casas de apostas e os primeiros “hotéis do amor” — estabelecimentos alugados por horas, que se tornariam uma instituição nacional — se instalaram nas vielas estreitas que ainda hoje desafiam qualquer noção ocidental de planejamento urbano. Uma lei antiprostituição promulgada em 1956 reconfigurou todo o entorno: enquanto Kabukicho reinventava seus negócios sob nova roupagem, o bairro vizinho de Nichome, esvaziado pelo fechamento de casas de sexo, foi ocupado por comerciantes da comunidade LGBTQ+, dando origem ao que se tornaria o mais importante distrito gay do Japão. Poucos bairros no mundo carregam uma genealogia tão entrelaçada entre repressão, reinvenção e identidade.

Golden Gai: a Tóquio que a modernização esqueceu de apagar

Se Kabukicho é ruído e escala, a poucos passos dali existe seu oposto quase exato. Golden Gai é um labirinto de menos de duzentos metros de comprimento, composto por mais de duzentos bares minúsculos, muitos deles com capacidade para não mais que seis ou oito pessoas. Nasceu como reduto de mercado negro no pós-guerra, mas ao longo das décadas de 1960 e 1970 se transformou em refúgio de escritores, cineastas e artistas de vanguarda — muitos deles ligados aos movimentos de contracultura que sacudiram o Japão naquela época. É ali que o dramaturgo Juro Kara montava sua tenda vermelha de teatro experimental, erguida, não por acaso, dentro do próprio terreno do santuário Hanazono. Enquanto arranha-céus brotavam do outro lado da avenida Yasukuni, Golden Gai permaneceu quase intacto — uma cápsula do tempo que sobreviveu por pura obstinação de seus donos em não vender o terreno às construtoras.

O santuário que guarda os artistas da noite

No coração desse território de contrastes está o santuário Hanazono, erguido ainda no século XVI, muito antes de existir qualquer coisa parecida com a Shinjuku atual. É considerado o guardião espiritual do bairro — protetor de comerciantes, artesãos e, com o tempo, também dos artistas de entretenimento que passaram a povoar a região. Dentro de seus terrenos existe um pequeno santuário dedicado às artes cênicas, o Geino Asama, onde atores e músicos ainda hoje fazem orações antes de estreias importantes. A cerca de duzentos metros, hospedarias por hora recebem casais anônimos e clubes de hospedeiros cobram fortunas por companhia. A convivência entre esses dois universos não é acidental nem recente: ela remonta a séculos de história em que templo e entretenimento sempre caminharam lado a lado no Japão.

Um roteiro para atravessar as duas almas do bairro

Para quem quer sentir esse contraste na pele, existe um percurso natural. Primeiro, saia da estação de Shinjuku pela saída leste e caminhe até o arco iluminado de Kabukicho Ichibangai, símbolo máximo do bairro desde 1956. Em seguida, vire à esquerda em direção à avenida Yasukuni e observe os prédios estreitos e altos conhecidos como zakkyo — verdadeiras colmeias verticais de bares, karaokês e salas de pachinko empilhadas umas sobre as outras. Depois, atravesse o portão de pedra que leva ao santuário Hanazono e caminhe até o fim do pátio, onde o barulho da rua praticamente desaparece. Por fim, saindo pela lateral do santuário, entre nas vielas de Golden Gai antes das dez da noite, horário em que os bares menores ainda aceitam visitantes de fora e a atmosfera de outra época se revela por inteiro.

O bairro como espelho do Japão

Kabukicho não esconde suas contradições — ele as exibe como quem já parou de tentar resolvê-las. Ali, o sagrado protege o profano, a arte de vanguarda floresceu à sombra do crime organizado, e um teatro que jamais foi construído deu nome a um dos points de entretenimento mais visitados do planeta. Talvez seja justamente essa recusa em escolher um único rosto que torne o lugar tão fascinante: Kabukicho não é a exceção grotesca de uma cidade ordeira, mas o retrato mais honesto de uma metrópole que aprendeu, há muito tempo, a conviver com tudo aquilo que não se explica com facilidade.

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