Em janeiro de 1913, o ministro do Exterior do Império Austro-Húngaro, Conde Berchtold, ouviu de um colega uma frase que se tornaria uma das piadas mais repetidas da história do século XX. Diante do temor de uma revolução na Rússia, o político austríaco teria perguntado quem, afinal, ousaria liderar tal levante. A resposta veio irônica: “E quem vai liderar essa revolução? Talvez o senhor Bronstein, ali sentado no Café Central?” O tal senhor Bronstein era Liev Trotski, exilado russo que passava os dias jogando xadrez e escrevendo panfletos entre uma xícara de café e outra, num salão de tetos altos e colunas no coração de Viena. Ninguém, naquele momento, levou a piada a sério. Poucos anos depois, Trotski liderava de fato uma revolução que mudaria o curso do século.
Essa cena, ao mesmo tempo cômica e profética, resume o que fez do Café Central algo além de um simples ponto de encontro: ele foi, por décadas, o verdadeiro laboratório intelectual da Europa Central.
Uma herança nascida de outro Café
Antes de o Central se tornar lendário, havia outro endereço que cumpria esse papel: o Café Griensteidl, aberto em 1847 na Michaelerplatz, bem em frente ao Palácio Hofburg. Por cinquenta anos, o Griensteidl foi o quartel-general da vida literária vienense, reunindo diariamente nomes como Hugo von Hofmannsthal, Arthur Schnitzler, Hermann Bahr e o jovem e ácido Karl Kraus. Foi ali que nasceu o movimento Jung-Wien, a “Jovem Viena”, responsável por reinventar a literatura austríaca no fim do século XIX. Stefan Zweig, que frequentou o local quando ainda era estudante, descreveria décadas depois, em suas memórias, como aquele ambiente moldou sua formação como escritor.
Em janeiro de 1897, contudo, o Griensteidl foi demolido para dar lugar à reforma urbana da Michaelerplatz. Karl Kraus, indignado, publicou um ensaio mordaz intitulado “A Literatura Demolida”, lamentando o fim do que considerava o verdadeiro centro da vida cultural da cidade. A perda, no entanto, não dispersou aquela geração de escritores e pensadores. Eles simplesmente atravessaram algumas quadras e se instalaram em outro salão, recém-aberto desde 1876, no térreo de um imponente edifício neorrenascentista: o Palais Ferstel. Nascia ali, por acaso e por necessidade, a nova capital do pensamento vienense: o Café Central.
Como um Café virou uma Universidade informal
O funcionamento do Café Central seguia uma lógica que hoje soa quase revolucionária. Por uma única xícara de café, era possível permanecer sentado por horas, folheando dezenas de jornais internacionais disponibilizados pela casa, escrevendo cartas, disputando partidas de xadrez ou simplesmente observando o vaivém de figuras públicas. O historiador e escritor Egon Friedell, um dos frequentadores mais assíduos, dizia brincando que praticamente morava ali, recebendo correspondência no próprio endereço do café.
Essa rotina gerou um ecossistema único, que pode ser descrito em poucos elementos-chave:
Primeiro, a democratização do acesso à informação: qualquer pessoa, independentemente de renda, podia consultar jornais de Paris, Londres ou Berlim pelo preço de um café.
Segundo, a informalidade estruturada: garçons de smoking circulavam entre mesas de mármore, mas ninguém era pressionado a consumir mais do que desejava ou a liberar o lugar.
Terceiro, a mistura de mundos: escritores dividiam o salão com médicos, políticos, xadrezistas e revolucionários exilados, criando um cruzamento raro entre arte, ciência e política.
Não à toa, o Central ganhou o apelido de “Die Schachhochschule”, algo como “a Faculdade de Xadrez”, em razão do número de partidas disputadas diariamente entre seus frequentadores mais competitivos.
Os nomes que passaram pelas mesas de mármore
A lista de figuras que circularam pelo Café Central impressiona pela diversidade. Sigmund Freud, então desenvolvendo as bases da psicanálise, era visto com frequência entre suas mesas. O poeta Peter Altenberg praticamente vivia ali, a ponto de ter um busto seu instalado no salão em sua homenagem. Theodor Herzl, fundador do sionismo moderno, e o arquiteto Adolf Loos, um dos pais do modernismo, também estavam entre os habituais. O grupo de filósofos que ficaria conhecido como Círculo de Viena, incluindo mentes como Kurt Gödel, chegou a realizar reuniões informais nesse mesmo espaço.
O ano de 1913 sintetiza bem esse cruzamento improvável de destinos: relatos históricos indicam que, naquele mesmo mês de janeiro, além de Trotski, circularam por Viena e por seus cafés figuras como Josip Broz Tito, futuro líder da Iugoslávia, e um jovem pintor fracassado chamado Adolf Hitler, que sobrevivia vendendo aquarelas pela cidade. Não há registro de que tenham se encontrado ou trocado uma única palavra — mas o fato de que suas trajetórias tenham, ainda que por acaso, cruzado o mesmo território geográfico e cultural continua sendo um dos detalhes mais inquietantes da história vienense.
O silêncio das guerras e o retorno do burburinho
A era dourada do Central não durou para sempre. Com a ascensão do nazismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial, boa parte de seus frequentadores judeus e dissidentes políticos foi forçada ao exílio ou pereceu. O café fechou as portas, e o Palais Ferstel amargou décadas de abandono. Só em meados dos anos 1970 o edifício começou a ser restaurado, e apenas em 1986 o Café Central reabriu em toda a sua magnificência original, com colunas, arcadas e o piano que ainda hoje acompanha as tardes dos visitantes.
Em 2011, toda a cultura do café vienense — não apenas o Central, mas o hábito centenário de ocupar mesas para ler, escrever e discutir — foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Hoje, quem entra no Central encontra majoritariamente turistas com câmeras fotográficas em vez de exilados políticos com panfletos revolucionários. Mas basta observar por alguns minutos o ritual: o café servido sobre uma bandeja de prata com um copo d’água ao lado, os jornais ainda disponíveis em suportes de madeira, o silêncio pontuado por conversas baixas. É possível, por um instante, entender por que aquele salão específico, entre tantos outros na Europa, conseguiu reunir psicanalistas, revolucionários, poetas e xadrezistas sob o mesmo teto — e por que, décadas depois, ainda seguimos contando suas histórias como se tivéssemos, também nós, uma mesa reservada ali dentro.