O Castelo Onde Um Príncipe Entrou e Nunca Mais Foi Visto

Em abril de 1483, um menino de doze anos deixou o castelo de Ludlow, no País de Gales, montado a cavalo, rumo a Londres. Ele era Eduardo V, rei da Inglaterra recém-proclamado após a morte inesperada de seu pai, Eduardo IV. Diante dele: uma coroação, um trono, um destino. O que ninguém poderia prever é que esse menino entraria na Torre de Londres e nunca mais voltaria a ser visto com vida.

Cinco séculos depois, o mistério continua aberto. E a Torre permanece de pé.

A Armadilha Disfarçada de Proteção

Quando Eduardo IV morreu subitamente em abril de 1483, deixou dois filhos: Eduardo, de doze anos, e Ricardo, de nove. Em seu testamento, nomeou o irmão Ricardo, Duque de Gloucester, como Lord Protetor do reino durante a menoridade do herdeiro — ou seja, o guardião legal dos próprios príncipes.

O Duque de Gloucester apresentou-se ao mundo como um tio solícito e leal. Mas seus movimentos foram metódicos e implacáveis.

No caminho de Eduardo V para Londres, Gloucester interceptou o cortejo real em Northampton. Na noite de 29 de abril, jantou amigavelmente com os conselheiros do jovem rei. Na manhã seguinte, mandou prendê-los. Em sequência, o séquito do príncipe foi dissolvido e Eduardo V foi escoltado pessoalmente pelo tio até a capital.

No dia 19 de maio de 1483, Eduardo entrou na Torre de Londres. A justificativa oficial era protocolar: era costume que regentes aguardassem a coroação alojados na Torre. O que ninguém disse ao menino é que aquele seria o último endereço de sua vida.

Dentro das Muralhas

Em 16 de junho, o irmão mais novo, Ricardo de Shrewsbury, com nove anos, foi levado para se juntar a Eduardo na Torre. Os dois passaram a dividir os aposentos internos do complexo. Segundo relatos de contemporâneos, especialmente do diplomata italiano Dominic Mancini, que visitou a Inglaterra naquele período, os irmãos eram vistos jogando nos jardins, atirando flechas, como crianças.

Mas algo estava mudando.

Mancini registrou que Eduardo V parou gradualmente de aparecer em público. Um médico que o visitava relatou, em palavras que gelam o sangue até hoje, que o príncipe “como uma vítima preparada para o sacrifício, buscava a remissão dos pecados com confissão e penitência diárias, porque acreditava que a morte se aproximava”.

Enquanto os meninos desapareciam das vistas, o tio avançava sobre o trono. Em 22 de junho, um sermão em Saint Paul’s declarou a família de Eduardo IV ilegítima. Em 25 de junho, um grupo de lordes peticionou formalmente pela coroação de Gloucester. Em 6 de julho de 1483, ele foi coroado Ricardo III da Inglaterra.

Os príncipes nunca mais foram vistos.

Os Suspeitos e as Teorias

O silêncio que se seguiu foi deliberado e ensurdecedor. Ricardo III nunca abriu uma investigação. Nunca apresentou os meninos ao público para provar que estavam vivos. Nunca respondeu aos rumores que já circulavam pela Europa em fins de 1483 — rumores de que os jovens herdeiros haviam sido assassinados.

A versão mais conhecida foi registrada por Thomas More entre 1513 e 1518, décadas após os fatos. Nela, dois homens — Miles Forest e John Dighton — teriam entrado no quarto dos príncipes à meia-noite e os sufocado com travesseiros e cobertores. Seus corpos teriam sido enterrados ao pé de uma escada, depois transladados para local ignorado.

Essa versão, porém, foi escrita para validar a narrativa dos Tudor — dinastia que desbancou Ricardo III e tinha interesse político em pintá-lo como monstro.

Outros suspeitos surgiram com o tempo. O Duque de Buckingham, aliado inicial de Ricardo que depois se rebelou contra ele, foi apontado em um documento português da época como o responsável pela custódia e possível morte dos meninos. Um registro do Colégio de Brasão, de 1980, indicava que o assassinato teria sido “pelo conselho do Duque de Buckingham”.

Há ainda uma corrente que levanta uma hipótese perturbadora: e se os príncipes não foram mortos por Ricardo III, mas por agentes de Henrique Tudor, o futuro Henrique VII, para eliminar rivais ao trono antes mesmo de tomar o poder?

Os Ossos e a Dúvida que Persiste

Em 1674, durante obras de renovação na Torre de Londres, operários encontraram uma caixa de madeira enterrada sob uma escadaria. Dentro dela, dois esqueletos de crianças. Carlos II ordenou que os restos fossem enterrados na Abadia de Westminster como se fossem os príncipes.

Exames realizados em 1933 indicaram que os ossos pertenciam a crianças de aproximadamente dez e doze anos — condizente com as idades dos príncipes em 1483. Mas os testes foram inconclusivos e, até hoje, a Abadia de Westminster não autorizou a reabertura do túmulo para análise de DNA.

Em 2016, a historiadora Philippa Langley, conhecida por ter localizado os restos de Ricardo III em 2012, fundou o “Missing Princes Project” — uma investigação nos moldes de um inquérito policial de caso frio. As pesquisas identificaram registros administrativos durante o reinado de Ricardo III que fazem referência aos príncipes sem qualquer indicação de morte ou preces fúnebres, o que era praxe da época. Para Langley, isso sugere que os meninos podem ter sobrevivido ao reinado do tio — e desaparecido de outra forma, em outro momento.

A hipótese é controversa. A maioria dos historiadores ainda acredita que Eduardo V e seu irmão foram mortos no outono de 1483. Mas ninguém provou. E ninguém foi julgado.

O Que a Torre Ainda Guarda

A Torre de Londres existe há quase mil anos. Já foi palácio, prisão, arsenal, zoológico real e casa da Coroa Jóias. Mas é o desaparecimento de dois meninos, numa única temporada de verão, que continua sendo o segredo mais pesado em suas pedras.

O caso dos Príncipes na Torre é, tecnicamente, o cold case mais antigo da história britânica. Não há confissão válida. Não há corpo identificado. Não há mandado, não há faca, não há testemunha que tenha falado antes de morrer. Só há duas crianças que entraram numa fortaleza armada, foram sendo vistas cada vez menos, e um dia simplesmente deixaram de existir para o mundo.

Toda vez que alguém atravessa o pátio da Torre de Londres hoje — turistas, fotógrafos, historiadores —, passa sobre o chão onde Eduardo V e Ricardo de Shrewsbury brincavam de arco e flecha no verão de 1483. O vento que vem do Tâmisa é o mesmo. As pedras são as mesmas.

E a pergunta que nenhuma geração conseguiu responder continua suspensa no ar frio: o que aconteceu com os meninos

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